Em uma devolutiva emocionante na EMEF Leonel Brizola, mais de 100 alunos validaram e aprimoraram o projeto arquitetônico que transformará seus desejos em realidade.
O urbanismo sustentável e a educação pública deram as mãos no último dia 16 de junho. Em um movimento que coloca a infância como protagonista do planejamento da cidade, a frente Brincar, um dos eixos centrais do projeto Educar Crescer, realizou uma assembleia consultiva com mais de 100 crianças dos primeiros e segundos anos da EMEF Leonel Brizola, em Canoas, para apresentar o projeto do futuro Parque Naturalizado e ouvir quem mais entende do assunto: os próprios usuários do espaço.



O Parque Naturalizado representa a principal entrega material e conceitual da frente Brincar. Diferente dos parquinhos tradicionais de plástico ou metal, as estruturas naturalizadas utilizam elementos da própria natureza, como relevos texturizados, troncos de madeira, pedras e vegetação nativa, estimulando a criatividade, o risco controlado e a conexão direta com o meio ambiente.
O encontro de junho não foi um evento isolado, mas uma etapa crucial de uma jornada de escuta iniciada no ano passado. A equipe do projeto percorreu as salas de aula para entender o que as crianças pensavam, idealizavam e desejavam para o terreno adjacente à escola.
Após coletar desenhos, maquetes e relatos, as ideias foram entregues a profissionais especializados para ganhar viabilidade técnica. O retorno à escola serviu para demonstrar o respeito ao processo democrático infantil, traduzindo as demandas em plantas de arquitetura e engenharia.
O Encantamento do Reconhecimento
A reação dos pequenos ao verem os desenhos técnicos e as projeções superou as expectativas da equipe técnica, composta por Ana Carol Thomé, Débora Vargas e pela arquiteta Su Diniz. Ao identificarem seus pedidos incorporados ao desenho oficial, o sentimento de pertencimento e autoria foi imediato.
“No ano passado a gente foi nas escolas, escutou as crianças sobre o que elas queriam, o que elas pensavam de ideias para o Parque Naturalizado. Então, agora a gente retorna nas escolas com o projeto, para apresentar junto com a Su Diniz, que é arquiteta, para mostrar como ficou e para escutar as crianças nessa devolutiva”, relata Ana Carol Thomé, pesquisadora do Educar Crescer e uma das ministrantes do encontro.
Expressões como “Fui eu que pedi a ponte!” ou “Eu que falei que queria água!” ecoaram pelo espaço. Essa validação visual reforça a importância de enxergar os estudantes não apenas como beneficiários passivos, mas como coautores legítimos dos equipamentos públicos de sua comunidade.



Mais do que apenas celebrar o projeto apresentado, os alunos da EMEF Leonel Brizola demonstraram um apurado senso de cidadania e cuidado coletivo, trazendo contribuições práticas que surpreenderam os organizadores. Os apontamentos técnicos levantados pelas mais de 100 crianças abordaram desde a sustentabilidade até a acessibilidade emocional dos brinquedos.
Principais contribuições e ajustes propostos pelas crianças:
- Infraestrutura Urbana: Um dos meninos alertou para a falta de iluminação pública no projeto inicial, argumentando a necessidade de luz “para a gente poder brincar de noite”.
- Consciência Ambiental: Houve uma forte demanda pela inclusão explícita de lixeiras, visando manter o parque preservado e limpo.
- Convivência Intergeracional: Diversos estudantes reforçaram a importância de haver bancos e locais confortáveis para que os adultos possam sentar e acompanhar as brincadeiras.
- Engenharia Lúdica: Surgiram propostas de integração entre estruturas, sugerindo juntar um brinquedo a outro para criar novos fluxos e dinâmicas de movimento.
- Acolhimento e Inclusão: Em uma demonstração de empatia, as crianças sugeriram adaptações em brinquedos mais altos para acolher e não excluir colegas que sofrem de medo de altura.
“Foram de verdade algumas indicações que as crianças fizeram e que a gente não esperava que eles fossem fazer, sabe? Então foi bem bonito de receber essa devolutiva das crianças”, destaca Ana Carol, ressaltando o valor metodológico de não subestimar a capacidade analítica da infância.
Do desenho infantil para a execução
A atividade prática também resultou em uma nova rodada de desenhos produzidos ali mesmo pelos estudantes, detalhando as melhorias sugeridas. O trabalho da equipe agora entra em uma fase de escritório e compilação rigorosa.
As falas, os apontamentos e os novos traços estão sendo sistematicamente catalogados pela equipe do Educar Crescer. Esse material servirá de base para o time técnico redesenhar a proposta inicial. O objetivo final é robusto e transformador: consolidar essas modificações em um projeto técnico definitivo que será reapresentado formalmente à Prefeitura, pronto para ser encaminhado para a fase de execução de obras.
