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Alimentar promove autonomia de mulheres de Quilombo de Canoas

Por Michelli Machado

Nessa segunda-feira, 24 de novembro, aconteceu mais uma aula promovida pelo Projeto Alimentar para mulheres do Quilombo Chácara das Rosas. As atividades, coordenadas pela bolsista do Educar Crescer Rafaely Reggiori, fazem parte de sua atuação como docente no projeto e, segundo ela, tem se configurado como um espaço privilegiado de articulação entre ensino, pesquisa e extensão, orientado por princípios de horizontalidade, coconstrução e responsabilidade. 

“Desde sua concepção, em diálogo com a coordenadora do Projeto Alimentar, Franciele Cardoso, estabelecemos como diretriz metodológica a centralidade das demandas e projetos de vida das alunas. Dessa forma, o planejamento pedagógico do segundo semestre de 2025 foi delineado a partir da realidade local: as alunas já dispõem de uma padaria comunitária no território quilombola e expressaram o desejo coletivo de equipá-la para funcionar como empreendimento econômico”, explicou. 

Por isso, o eixo formativo do curso, que está em suas aulas finais, focou em panificação, confeitaria e empreendedorismo social. O objetivo foi atender a demanda das alunas e debater questões de gênero e estratégias de autonomia econômica no contexto de mulheres negras e quilombolas. 

Alunas quilombolas do Projeto Alimentar
Alunas quilombolas do Projeto Alimentar

Segundo Rafaely, essa é uma estrutura curricular que reflete compromissos teórico-políticos ancorados no debate sobre desigualdades de gênero no acesso a recursos produtivos e à segurança alimentar. “Nessa direção, as mediações pedagógicas foram articuladas às pesquisas de Adriana Salay Leme e à produção da coordenadora do Projeto Alimentar Franciele Cardoso, que evidenciam como a fome no Brasil é atravessada por marcadores de gênero, raça, território, entre outros, exigindo respostas que não se limitem à assistência, mas que promovam justiça distributiva e reconhecimento”, destacou. 

Trazendo as alunas para viver a Unisinos 

O curso que iniciou em setembro e ocorre semanalmente, com aulas que duram o dia todo, trouxe as alunas para o Campus da Unisinos em São Leopoldo, para vivenciarem a Universidade. De acordo com a ministrante das aulas, essa escolha não foi meramente logística, mas uma decisão pedagógica intencional, que busca tensionar a centralidade do saber institucionalizado e ao mesmo tempo, ampliar o acesso das participantes a espaços historicamente excludentes.  

“Cada encontro foi pensado como oportunidade de problematização crítica, seja ao abordar técnicas culinárias, seja ao discutir modelos de gestão coletiva, precarização do trabalho feminino ou políticas públicas para povos tradicionais. Nesse sentido, a extensão tem se revelado um laboratório epistemológico vivo, onde teoria e prática se reconfiguram mutuamente”, enfatizou. 

O Projeto Alimentar não apenas oferece ferramentas técnicas, mas pavimenta o caminho para que o desejo coletivo dessas mulheres se torne um empreendimento econômico sólido, construído sobre os pilares da criação conjunta e da dignidade. O sucesso dessa iniciativa aponta para a importância de manter e expandir projetos que aliam o rigor acadêmico à sensibilidade e centralidade das demandas reais das comunidades.