Por Luciane Bohrer
Cores, formas geométricas e, acima de tudo, a liberdade de pensar e criar tomaram conta da EMEB Alberto Pasqualini nesta sexta-feira, 29 de maio de 2026. Alunos do Pré 2 e do 1º ano do Ensino Fundamental protagonizaram a abertura da exposição “Releituras de Volpi – Crianças em Diálogo com a Arte e o Pensar”. Muito mais do que uma mostra de desenhos, o evento é o resultado de um processo pedagógico profundo que estimulou crianças de 5 a 7 anos a enxergarem e questionarem temas complexos como moradia, a vida nas cidades e as diferenças sociais.




A abertura da exposição movimentou a escola e transformou os pequenos artistas em anfitriões orgulhosos. As famílias compareceram para prestigiar as produções, enquanto alunos de outras séries também visitaram o espaço, criando um rico momento de troca entre diferentes idades. Para tornar a experiência ainda mais viva, os visitantes foram convidados a colocar a mão na massa e também confeccionaram seus próprios barcos de papel, integrando-se à proposta artística dos colegas.
A iniciativa nasceu e ganhou corpo a partir das reflexões propostas nos encontros do eixo Escrever do projeto Educar Crescer – uma realização da Unisinos em parceria com o Programa Petrobras Socioambiental.
Para Gabriela Venturini, pesquisadora do projeto, que acompanha a escola, a ação materializa os objetivos dos estudos em educação na prática do dia a dia. “Desenvolvemos a qualidade no trabalho diário que levou as crianças para uma exposição, colocou-as em contato com a arte, ampliou repertórios e, acima de tudo, as colocou numa relação com o pensamento, que é o que a filosofia com crianças faz. É muito satisfatório enxergar o acontecimento daquilo que a gente tanto pesquisa”, destaca Gabriela.
Do Farol Santander para a maquete: arte, som e tecnologia
O ponto de partida dessa jornada cultural foi uma visita de estudos à exposição Viva Volpi, no Farol Santander, em Porto Alegre. Inspirada pelo universo das bandeirinhas, casarios e embarcações do mestre do modernismo brasileiro, a professora Ângela Inês Paiva de Lima, idealizadora e organizadora do projeto na escola, enxergou a oportunidade de ir além do currículo tradicional.






Durante cerca de um mês, as salas de aula se transformaram em verdadeiros ateliês de experimentação multissensorial. A mostra reúne pinturas vibrantes, maquetes e uma instalação interativa que recria o fundo do mar: uma mistura sensível de papelão com projeção de vídeo e sonoplastia com o barulho das ondas, transportando os visitantes para o universo dos barcos que Volpi tanto retratava.
Paralelamente à produção visual, a literatura e a filosofia conduziram os pequenos a reflexões surpreendentes para a faixa etária. A partir das fachadas e casas inspiradas na obra do artista, os estudantes começaram a pensar sobre o conceito de “morar”, a estrutura dos seus próprios bairros e a organização da cidade. O olhar curioso das crianças avançou, inclusive, para a percepção de questões sociais profundas, expressando suas visões sobre riqueza, pobreza e quem tem acesso aos diferentes espaços urbanos.
Para a professora Ângela, o maior ganho está justamente nessa capacidade de observação e criticidade desenvolvida pelos alunos. “Depois dessa exposição, eu percebi o quanto eles avançaram nessas questões de perguntar o porquê de estarmos fazendo aquela proposta. Não era aquela coisa só por fazer. A releitura veio justamente disso: da questão de elaborar uma nova visão sobre aquela obra.”
O impacto do Educar Crescer na prática docente
Se para os alunos a exposição representou um salto no desenvolvimento cognitivo, para o corpo docente o impacto foi igualmente transformador. A semente do projeto foi plantada no ano passado, durante as formações do Educar Crescer, onde a prática de documentar, debater e escrever sobre o cotidiano escolar transformou a rotina da educadora.
A experiência com as turmas da EMEB Alberto Pasqualini foi tão marcante que agora está sendo transformada em conhecimento acadêmico. Ângela, ao lado da professora Betina Schuler e da pesquisadora Gabriela Venturini, está desenvolvendo um artigo científico para registrar e compartilhar a metodologia dessa proposta com outras redes de ensino.
Gabriela pontua o quanto o engajamento da educadora reflete diretamente no sucesso da iniciativa com os alunos. “A Ângela é aquela professora que traz ideias, pede leituras e tem sede de conhecimento. Quanto mais ela expande sua visão de mundo, mais ela procura por isso e as crianças se abastecem dessa busca. É um modo simples, da ordem do acontecimento diário, de termos pequenas mudanças reais no campo da educação”, avalia Venturini.
A professora destaca como o espaço de formação do projeto parceiro foi o combustível para a sua própria evolução profissional e pessoal. “No ano passado, percebi o quanto foi fundamental resgatar o tempo de sentar, escrever e me conectar com novas literaturas. Sigo com o projeto Educar Crescer neste ano, com muita alegria, vendo o quanto a minha própria escrita evoluiu. A verdade é que nós incentivamos muito esse processo com as crianças, mas, na correria, acabamos deixando de lado o nosso próprio exercício de pensar: ‘o que eu, de fato, penso sobre essa proposta?’. Por isso, é imprescindível garantirmos que o professor também tenha tempo e espaço para exercer a sua subjetividade, para se reconhecer e se expressar nesse processo”, pondera, Ângela.
A exposição “Releituras de Volpi” deixa uma marca importante na comunidade escolar de Esteio, consolidando a potência dos projetos intersetoriais que provam que a infância é um território fértil para a arte, a sensibilidade e o pensamento crítico.
