Por Luciane Bohrer
O que acontece quando o conhecimento teórico transborda e se transforma em intervenção real na escola? Essa foi a tônica do encontro que marcou o início de uma nova etapa do Projeto Escrever, nesta quarta-feira (25), na EMEF Erna Würth, no bairro Guajuviras, em Canoas. A iniciativa, realizada pela Unisinos em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, deu o pontapé inicial em seu cronograma de estudos coletivos para o biênio 2026-2027.


Após um ciclo de qualificação que envolveu 30 professores em 2025, o projeto agora reposiciona o docente como protagonista. O foco deixou de ser o curso tradicional para se tornar uma oficina de planejamento. Agora, os educadores desenham as oficinas que aplicarão diretamente, levando a teoria da sala de aula para a prática pedagógica transformadora. Segundo a coordenadora do Escrever, Betina Schuler, o trabalho se expande e se fortalece em duas frentes: na Erna Würth, em Canoas, e na Alberto Pasqualini, em Esteio. “A ideia é trabalhar junto a esses pequenos coletivos de professores dentro das escolas, desenvolvendo oficinas de escrita e leitura sob uma perspectiva filosófica”, explica.
A vida como obra de arte
O encontro começou com um mergulho na reflexão sobre criação e narrativa. O primeiro grande insight do grupo surgiu a partir da obra da artista visual Rosana Paulino. Ao assistirem e discutirem um vídeo sobre a trajetória da artista, os professores puderam debater como as questões de memória e resistência se entrelaçam com o ato de escrever e ensinar.


Essa conexão entre arte e educação já estava presente nos corredores da Erna Würth. A escola recebeu uma instalação artística composta pelos quadros produzidos pelos próprios professores no encerramento do ano passado. A intervenção visual materializa a evolução dos educadores, transformando o ambiente escolar em um espaço de exposição do percurso formativo de cada um.
Foco na escrita como forma de afeto
A entrega dos Cadernos de Escrita foi outro momento central do dia. Muito mais do que um item escolar, o material exclusivo servirá como suporte para o trabalho de escrita pessoal e pedagógica nos encontros mensais. Betina ressalta que a proposta é que os docentes utilizem o espaço para algo que vai além do registro burocrático. “Os cadernos não devem ser vistos como um relatório do que foi feito, mas como a criação de um arquivo de experiências pedagógicas. Queremos estimular um planejamento mais sensível, focado no que tem afetado os professores e os estudantes, e no que essas ações têm mobilizado em termos de pensamento e de vida”, define a coordenadora.

Para o bolsista do projeto, Marcelo Vier, a atmosfera do encontro revelou um grupo pronto para os desafios dos próximos dois anos. Ele conta que o sentimento de felicidade ao ver a exposição montada e ao compartilhar os textos produzidos traduz a essência dessa nova fase. “Sentimos as pessoas muito entusiasmadas”, afirma, destacando que o planejamento, algo tão cotidiano na vida do professor, ganhou uma nova dimensão.
Segundo ele, o Escrever permite que as ideias saiam da simples reflexão e ganhem o mundo. “Parece que as coisas transbordam; elas vão para a vida de cada um, para a escola, para casa. Essa talvez seja a maior marca desse primeiro dia: a expectativa de um 2026 muito transbordante”, destaca o bolsista.
Com o planejamento 2026/2027 em curso, o Projeto Escrever reafirma sua missão de fortalecer a leitura e a escrita na rede pública, apostando na sensibilidade e na ação direta de quem faz a educação acontecer todos os dias.
